Busca incessante por doenças na internet gera os cibercondríacos – Diário do Nordeste – internet pink blog

Como muitas doenças possuem os mesmos sintomas, a pessoa pode concluir, erroneamente, que tem algo mais grave

A busca por informações sobre doenças na internet é um hábito que está se tornando cada vez mais comum. Assim como pesquisas para tentar decifrar exames médicos e os efeitos colaterais dos remédios. Basta sentir uma dor diferente no corpo para muitos recorrerem ao “doutor Google”. Em alguns casos, a pesquisa pode ser benéfica, pois possibilita que a pessoa se mantenha informada sobre a doença.

Em outros, no entanto, pode ser perigoso, uma vez que a busca incessante por patologias na web pode se tornar uma obsessão. Daí surgem os chamados hipocondríacos digitais ou cibercondríacos. O problema é que, como muitas doenças possuem os mesmos sintomas, pode acontecer de uma pessoa que tem uma patologia simples, de tanto pesquisar, concluir, erroneamente, que possui uma doença grave. Por conta disso, ela passa a sofrer por antecipação e ter crises de ansiedade.

Curiosidade

A assistente de vendas Ana Lúcia de Sousa, 29 anos, conta que frequentemente faz buscas sobre temas de saúde na internet. Recentemente, ela passou um problema de pancreatite aguda e, após fazer uma tomografia, descobriu que estava com um cisto no pâncreas. Foi o suficiente para ficar apavorada, sem saber se seria um cisto maligno ou benigno e o seu tamanho.

Inicialmente, pensou que o médico tinha dado um diagnóstico errado de sua doença, mas após pesquisar na internet, descobriu que o cisto tinha a ver com a pancreatite. Somente depois se tranquilizou. “Foi melhor do que a explicação do médico. Vi a importância de ler e ter um bom entendimento do que está acontecendo. Têm pessoas que pesquisam na internet, mas não sabem ter uma correta interpretação do que leem”, frisa. Por causa das pesquisas que realiza na rede, Ana Lúcia relata que já entrou, inclusive, em confronto com alguns médicos por não concordar com o que disseram.

Depois da consulta recorre novamente à internet para confirmar a informação que foi dada. “A internet é a minha segunda opinião”, diz. Antes de comprar o remédio pesquisa sobre a bula na rede. E se observar que tem muitos efeitos colaterais, não compra o medicamento.

Para a assistente de vendas, a vantagem da internet é que ela fornece informação rápido. A desvantagem é que ela oferece detalhes do diagnóstico que as pessoas não esperam, o que leva ao choque. “Dependendo do problema, pode não ser agradável e a pessoa fica mais tensa”, explica. Por segurança, Ana Lúcia afirma que sempre pesquisa em sites confiáveis, de médicos de renome ou clínicas conhecidas.

Hipocondria

Eugênio de Moura Campos, presidente da Sociedade Cearense de Psiquiatria, comenta que a novidade é a disponibilidade de informações na internet, mas ressalta que a preocupação com doenças sempre existiu: a hipocondria. Ele explica que, com a rede, existe uma nova maneira dos hipocondríacos mostrarem sua preocupação com a doença.

O que caracteriza o hipocondríaco, acrescenta, é ele achar que tem uma doença grave. A internet facilita o hipocondríaco a ir atrás dos temores que tem. Como ele encontra uma enorme quantidade de informações, surgem várias possibilidades de doenças. Nese caso, a internet não ajuda. “Quando ele tem acesso a essa ou àquela informação, em geral a utiliza para aumentar a sua preocupação”, esclarece.

Por isso, os psiquiatras não recomendam o hipocondríaco a ler a bula, pois ele vai incorporar tudo que ler como sendo mais um argumento para intensificar um comportamento que já tem.

“O correto é esclarecer com um médico e não na internet”, alerta Campos. Para o especialista, o que ajuda é a pessoa ter certeza de que não possui a doença que ela acha que tem. E ao invés de procurar sobre doenças na internet, ela deve pesquisar sobre um tratamento psicológico ou psiquiátrico. “Estudar as doenças não ajuda em nada”.

A curiosidade sobre si próprio e a situação que passa naquele momento, aliado à questão da praticidade é o que leva muitas pessoas a consultarem sobre patologias na internet. Mas, ao sentir os primeiros sintomas, a primeira medida que se deve tomar é procurar um médico, “porque a internet não dá diagnóstico, quem dá são profissionais embasados em exames”, defende Ricardo Jorge, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutor em comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Interpretação

O especialista destaca que a internet pode ser interessante quando a pessoa sabe a doença que tem. A partir daí, ela vai buscar saber como outras pessoas encararam o problema, se foram curadas e quais cuidados passaram a ter. “A internet funciona como autoajuda a partir do que a pessoa sabe que tem. Contudo, o fato de ter muitas informações na rede não significa que a pessoa vai interpretá-las de modo correto”, pondera.

Jorge comenta que é muito fácil as pessoas confundirem a palavras do especialista com a do leigo. “Viu na internet é verdade”, explica. E que nem sempre os internautas questionam a veracidade do que está na rede.

O termo “cibercondríaco” é recente. Conforme o professor, ele surgiu no começo do século XXI, com a popularização da internet. Ele lembra que, antes, as informações eram obtidas através das enciclopédias. Hoje, como a internet disponibiliza informações “aos montes”, reforça a importância de não criar expectativas em cima delas. “Acho legal que tenha informações na internet, mas só acho pertinente quando você pode checá-la com um especialista da área”, diz.

Basta sentir uma dor diferente no corpo para muitos recorrerem ao “doutor Google”, o que em alguns casos pode ser benéfico

Em outros, no entanto, pode ser perigoso, uma vez que a busca incessante por doenças pode se tornar uma obsessão

Credibilidade

“Acho legal que tenha informações na internet, mas só acho pertinente quando se pode checá-la com um especialista”

Ricardo Jorge
Professor da UFC

Pesquisa ajuda no diagnóstico

Foi através de uma busca na internet que a assessora jurídica Jeane Bernardo Pinheiro descobriu que a sua filha tinha refluxo da laringe Foto: Natasha Mota

Apesar da enorme quantidade de informações e da questão da credibilidade do que é disponibilizado na rede, em alguns casos, a internet pode ajudar na hora de descobrir o diagnóstico de uma doença. Foi o que aconteceu com a assessora jurídica Jeane Bernardo Pinheiro, 39 anos. Sua filha, de 9 anos, estava com uma tosse seca e febre. Foi, então, a algumas emergências, e os médicos sempre passavam anti-alérgicos, mas a tosse retornava.

Depois, sua filha começou a sentir falta de ar. Quando retornou ao hospital, novamente, o médico receitou um antialérgico. Ainda assim, a tosse não passava. Quando já não aguentava mais recorrer à emergência dos hospitais, ela resolveu pesquisar na internet e descobriu que o que sua filha estava sentindo coincidia exatamente com os sintomas de refluxo da laringe. Ela voltou à emergência, mostrou a pesquisa para a médica que a indicou um gastroenterologista.

“Claro que a gente não pode confiar totalmente na internet, tem que procurar depois um médico para constatar se é realmente a doença que você está achando”, destaca. O caso de Jeane não é único. Foi também com auxílio da internet que a dona de casa Maria Celina Correia de Oliveira, 40 anos, com auxílio de uma amiga, a autônoma Delânia Maciel, 45 anos, que tem mais familiaridade com a rede mundial de computadores, descobriu o diagnóstico correto do que o seu filho, um jovem de 14 anos, estava passando.

Ele tinha uma febre que não passava. Foi internado em vários hospitais, mas ninguém descobria o que tinha. Foram várias as suspeitas: problema na garganta, dengue e, por último, tuberculose. O menino chegou, inclusive, a tomar remédios fortes para tuberculose durante nove dias.

Passou 23 dias internado no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), antes de ser transferido para o Hospital Infantil Albert Sabin (Hias). A essa altura, os seus rins não estavam mais funcionando e o fígado e o coração estavam comprometidos. Somente depois de falar, por telefone, com um médico de São Paulo, e a partir da indicação dele pesquisar na internet, descobriram que o menino sofria de uma síndrome de goodpasture – doença caracterizada pela rápida destruição dos rins. A mãe do adolescente imprimiu a pesquisa e levou para os médicos, que confirmaram a doença.

Consulta médica

Lino Antônio Cavalcante Holanda, cirurgião e secretário geral do Conselho Regional de Medicina do Ceará (Cremec), afirma que todo mundo tem direito de ter acesso à informação, o que considera, inclusive, benéfico.

Entretanto, aponta que o principal problema da internet é o grande número de fontes não necessariamente confiáveis. “É importante verificar o que tem na rede, mas depois ir a uma consulta médica”, destaca. Holanda ressalta que é cada vez mais comum pacientes chegarem nas consultas com informações da internet. “Temos que aceitar o que ele viu e dizer o que achamos”, esclarece.

Opinião do especialista

“Nada substitui um médico”

Florentino de Araújo

Presidente da Associação Médica Brasileira

Nós acreditamos que é bom que os pacientes busquem saber exatamente o que eles têm. Mas essa busca precisa ser feita através de um conteúdo que tenha credibilidade. Na internet tem tudo, inclusive lixo. Na área da saúde existem vários sites especializados de muita credibilidade. Sites que disponibilizam bastantes informações para leigos. Estes devem ser consultados. Eventualmente, o paciente deve questionar. Perguntar ao médico sobre os diferentes meios de diagnósticos e de tratamentos.

O problema é que algumas pessoas se impressionam com o que acham na internet. Por isso, a gente sempre recomenda que elas procurem ter informações de saúde em sites institucionais, confiáveis. Quem quer ter informações sobre câncer, deve acessar sites do Instituto do Câncer, por exemplo. Se a pessoa simplesmente colocar câncer na pesquisa vai achar muita informação que pode apavorar o paciente.

É comum o paciente achar que tem determinada doença e fazer uma consulta na internet, mas a web não vai dar diagnóstico de nada. A pesquisa não substitui a consulta médica.

É comum que as pessoas pesquisem. Assim como é comum que, as pessoas que têm dúvidas, cheguem no consultório com informações ruins da internet. Na maioria das vezes, a internet ajuda, porque o paciente começa a se inteirar do que ele tem. E quanto mais informações a pessoa tiver sobre o seu problema melhor. O risco maior é de que a pessoa tome as condutas apenas pela internet. O paciente tem que ser conduzido por um médico. Nada substitui um médico para cuidar da saúde das pessoas.

É importante incentivar as pessoas a terem boas informações, buscar o máximo possível entender o que está acontecendo com ela, mas sempre lembrando que existem fontes boas e ruins, e que é sempre bom consultar um médico para avaliar a saúde.

LUANA LIMA
REPÓRTER

via internet – Google Notícias http://news.google.com/news/url?sa=t&fd=R&usg=AFQjCNGz5w0o52Lm6pg3SVX3WCGXcfRplA&url=http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo%3D1184291

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